Nascer com saúde para viver com saúde

Pais e Filhos - Publicado em 7 de Dezembro, 2007

Prevenção de doenças começa antes da concepção e prossegue durante a gestação e os primeiros dias de vida

São nove meses de grande ansiedade. Afinal, não é para menos. De repente, quando a gravidez surge, seja planejada ou não, todas as expectativas se voltam para o bebê e, em meio a uma lista infindável de preparativos e sonhos, o grande desejo é que ele se desenvolva adequadamente e venha à luz com saúde.

A boa notícia é que, com os avanços da medicina, as futuras mamães dispõem de recursos cada vez mais eficazes que as auxiliam para que os filhos tenham, desde os primeiros momentos de vida gestacional, o acompanhamento necessário para um bom desenvolvimento. “Com a evolução dos recursos diagnósticos, o conceito de prevenção ganhou espaço definitivo. É um processo que começou há 25 anos e está se desenvolvendo em escala exponencial”, avalia José G. H. Vieira, assessor médico das áreas de Imunologia e Endocrinologia do Fleury. “O resultado prático é a oportunidade cada vez maior de desenvolvimento saudável dos bebês desde os primeiros momentos da gravidez”, completa.

Atenção no planejamento gestacional

Os cuidados com a saúde devem começar, sempre que possível, antes mesmo da concepção. Uma das primeiras etapas diz respeito à alimentação, que figura como medida importante de segurança.

Além da dieta equilibrada, a ingestão de ácido fólico, vitamina do complexo B presente em alimentos como peixes, fígado, feijão, brócolis, espinafre e gema de ovo, contribui para reduzir o risco da ocorrência de malformações do sistema nervoso. “Sob orientação do médico, a mulher deve iniciar a suplementação dessa vitamina antes mesmo de engravidar. Trata-se de uma medida simples e de valor enorme para a concepção normal”, ressalta Vieira.

Para o casal que tem em vista a gravidez, pensar na proteção da mulher em relação a determinadas doenças que poderão interferir no desenvolvimento do futuro bebê também é passo essencial. “A imunização é uma etapa importante do pré-natal e o ideal é pensar nas vacinas antes mesmo de engravidar, já que algumas delas, por serem compostas de vírus atenuado, preferencialmente, não devem ser administradas durante a gestação”, orienta o infectologista do Fleury, Jessé Reis Alves.

É o caso da tríplice viral, que age contra sarampo, caxumba e rubéola, e da tríplice bacteriana do adulto, responsável pelos anticorpos contra tétano, difteria e coqueluche. A indicação é de que até o futuro pai receba as vacinas, para não correr o risco de infectar a mãe.

Fator Rh

Outro aspecto que deve ser considerado pelo casal é a possibilidade de incompatibilidade sanguínea entre a mãe e o feto.

Os glóbulos vermelhos de algumas pessoas contêm uma proteína denominada fator Rh, razão pela qual o sangue de quem a possui é indicado com Rh+. Quando um indivíduo não a possui, seu sangue é Rh-.

A futura gestante RH-, cujo parceiro é RH+, pode gerar um filho RH+. “Durante o período de gestação, há comunicação entre a mãe e o filho por meio da placenta, pela qual pode haver a passagem de células do sangue do filho para a circulação materna”, detalha Alves.

Assim, pode ocorrer a sensibilização do sistema imunológico da mãe, que passa a produzir anticorpos contra o fator RH presente no bebê. “Para evitar esse problema, no entanto, na 28ª semana de gravidez, o médico deve prescrever os anticorpos anti- RH, que bloqueiam o processo de sensibilização do corpo materno”, afirma Alves. Se o bebê, ao nascer, é detectado como RH+, a mãe deve tomar ainda uma segunda dose.

Investigação preventiva

Em casos especiais, o planejamento da gravidez pode incluir também o rastreamento dos aspectos genéticos da família, com o objetivo de identificar os riscos de incidência de determinadas doenças. “Os casais que estão planejando ter filho têm a opção de identificar e reduzir riscos potenciais da ocorrência de determinadas alterações congênitas ou genéticas, planejar exames ou procedimentos para riscos conhecidos e receber orientações sobre cuidados pré-natais precoces para otimizar o curso gestacional”, avalia a pediatra e geneticista do Fleury, Sofia Sugayama.

O ideal é que o levantamento seja feito antes da gravidez, contudo é possível realizá-lo durante a gestação, afirma Sofia. Para tanto, os pais podem recorrer ao aconselhamento genético com especialistas, uma consulta médica que avalia as condições de saúde do casal, antecedentes pré-natais, questões étnicas e histórico familiar baseado na genealogia de até quatro gerações, para a investigação de possíveis enfermidades. A decisão de realizar eventuais procedimentos fica por conta do obstetra que está acompanhando a gestante.

Outra verificação fundamental é a pesquisa do vírus HIV, responsável pela Aids. De acordo com Celso Granato, assessor médico da área de Infectologia do Fleury, existem protocolos muito bem definidos que podem evitar em 99,5% dos casos a transmissão do vírus de uma mãe HIV positiva para o feto. “É preciso realizar o exame de sangue na mãe para descartar a presença do vírus. Se esta for constatada, alguns cuidados devem ser tomados durante a gestação e o parto para evitar a passagem do vírus da mãe para o bebê”, explica o especialista. A partir da 28ª semana, a gestante deve receber medicamentos contra o agente da Aids, procedimento que deve ser reforçado durante o parto. Logo após o nascimento, o bebê também toma o medicamento, tratamento que deve se estender durante as seis primeiras semanas de vida.

Gestação com saúde

Com o resultado positivo da gravidez, começa uma nova etapa. Durante nove meses, são muitas idas e vindas ao especialista, diversas consultas e uma série de exames necessários para o acompanhamento médico adequado. Contudo, o pré-natal não deve ser visto apenas como necessidade ou obrigação, mas também como oportunidade. De acordo com a obstetra Vera Lúcia Delascio Lopes, da Pro Matre Paulista, nesta etapa a prevenção tem efeitos que vão além da gravidez. “Os cuidados com a saúde da mãe e do bebê são tão importantes que podem influenciar até o nível do desempenho escolar que a criança terá”, ressalta.

Uma das ferramentas que ajudam nesse sentido é o rastreamento, por meio de exame de sangue materno, de algumas doenças, a exemplo de anemia, diabetes gestacional, problemas na tiróide e toxoplasmose, enfermidades que podem afetar o desenvolvimento da criança. “Todas essas doenças devem ser investigadas ao longo da gravidez, sobretudo a toxoplasmose, uma infecção que pode alterar o desenvolvimento do sistema nervoso central do bebê”, avalia Vieira.

Para evitá-la, o especialista relaciona alguns procedimentos que podem resguardar a gestante.

“É aconselhável que a gestante, que não tenha imunidade contra o Toxoplasma, tome precauções como não consumir carnes cruas, além de evitar contato com os animais, especialmente gatos”, aconselha o médico do Fleury. Vale lembrar também que as futuras mamães evitem a administração de medicamentos que não sejam indicados pelo médico que faz o acompanhamento pré-natal, já que a ingestão de substâncias contraindicadas pode também afetar o bebê. O médico, criteriosamente, pode avaliar a necessidade e os riscos envolvidos e, assim, prescrever o medicamento mais adequado.

Contribuição da tecnologia

A medicina diagnóstica conta com o precioso auxílio da tecnologia no acompanhamento pré-natal.

É o caso das ultra-sonografias, que, hoje, permitem mais do que acompanhar o desenvolvimento do feto. As técnicas evoluíram de tal forma que a mulher, além de conhecer o bebê mesmo dentro da barriga, pode observar diversos aspectos do filho, como peso, medida, batimentos cardíacos e eventuais problemas no seu desenvolvimento.

Segundo David Pares, assessor médico do Serviço de Medicina Fetal do Fleury, o ultra-som morfológico é um exame que permite avaliar a anatomia interna e externa do feto e averiguar seu desenvolvimento. “Esse exame tem indicação universal para acompanhamento da gestação e do feto. A grande vantagem é a possibilidade de detecção precoce de problemas, permitindo, em certos casos, até o tratamento intra-útero”, ressalta Pares.

Mais segurança para o bebê

Assim como todos esses recursos estão presentes durante a gestação, existem procedimentos realizados após o nascimento do bebê que igualmente colaboram para avaliar a saúde dos recém-nascidos e possibilitam atuar na prevenção de certas enfermidades.

O Teste do Pezinho, por exemplo, obrigatório por lei, investiga no mínimo duas doenças tratáveis por meio de medicamentos ou de dieta especial. É o caso do hipotiroidismo congênito (leia matéria na página 24), perfeitamente controlado com a administração do hormônio da tiróide. “Hoje, no entanto, já existe um exame mais completo, chamado Teste do Pezinho Ampliado, que pode detectar mais de 30 enfermidades”, explica o assessor médico da área de Neurologia do Fleury e livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP, Fernando Kok.

“Esse teste ajuda a diagnosticar doenças, algumas das quais muito raras que, muitas vezes, não apresentam sintomas nos primeiros dias ou meses de vida”, destaca. O reconhecimento precoce possibilita, entretanto, adotar medidas que permitirão o tratamento ou o melhor controle dos sintomas associados a essas doenças. O ideal é realizar esse exame até o quinto dia de vida, mas nada impede, para a maior parte das análises realizadas, que sejam feitas em crianças de mais idade.

Outro aspecto importante está relacionado à imunização do bebê. De acordo com o Ministério da Saúde, já no primeiro dia de vida, o neonato deve receber a primeira dose da BCG, que protege da tuberculose, e da vacina contra a hepatite B. A segunda dose da vacina contra a hepatite B fica para o trigésimo dia e, no segundo mês, entram em cena a tríplice bacteriana, a Sabin, que evita a poliomielite, e a Hib, que protege de bactérias que causam meningite e pneumonia. No segundo mês, é indicada também a vacinação contra as rotaviroses, enfermidades comuns em crianças e facilmente transmissíveis, que podem provocar diarréia, vômito e desidratação e são importante causa de hospitalização.

Teste da orelhinha

Além do rastreamento sanguíneo, a triagem auditiva neonatal - ou teste da orelhinha - é uma ferramenta útil na avaliação inicial da capacidade auditiva e, em caso de deficiência, no acompanhamento adequado da criança. “O reconhecimento precoce da surdez viabiliza a introdução de medidas que facilitam a aquisição da linguagem e o desenvolvimento social e emocional da criança”, indica o chefe de Otoneurologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), Mário Munhoz.

Fácil de ser realizado, o teste detecta os sons produzidos pelos movimentos de células presentes no labirinto.

Cerca de 94% dos bebês passam no teste e não apresentam nenhum tipo de alteração. “Apenas 6% vai precisar de outros exames para avaliar mais profundamente o tipo e o grau de deficiência”, completa o especialista.

As estimativas apontam que 1 a 3 em cada mil crianças nasce com perda de audição significativa, que vai necessitar de reabilitação.

Algumas condições contribuem para a ocorrência de deficiência auditiva, como infecção congênita por citomegalovírus, meningites, traumas e doenças genéticas. “Portanto, diante de suspeita clínica, a função auditiva deve ser sempre reavaliada, mesmo em crianças com triagem neonatal normal”, conclui Munhoz.

Fonte: www.fleury.com.br

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