Saia-justa no salão

Saia justa no salão
Foto: Reprodução

Atire a primeira tesoura a mulher que nunca se sentiu insegura, constrangida, irritada ou louca da vida no cabeleireiro.

Se existisse manual de etiqueta para a visita ao cabeleireiro, a primeira regra seria: cadeira de salão não é divã de terapia. É verdade que alguns profissionais especializados no que está fora da cabeça são tão caros quanto aqueles que cuidam do que há (ou não há) dentro dela. Mas é de bom-tom não confundi-los, evitando depoimentos íntimos em lugar público. Sim, salões são públicos, apesar de você circular por eles com coisas esquisitas no cabelo, gosma azulada no buço ou jeans arregaçado nos joelhos.

Não é terapia. Mas serve de colo quando as coisas não vão bem e o desejo é “mudar tudo”. Esse “tudo” começa e termina nos cabelos: cortar, repicar, tingir, não importa, o que interessa é sair diferente. Só que os profissionais alertam: mudanças radicais, em geral, fazem com que a mulher saia pior do que entrou. Funcionam na TV, nas fotos das revistas, mas na vida real não é assim. Não queira “mudar tudo” quando está, digamos, emocionalmente alterada.

Daí alguns cabeleireiros dizerem “não” a desejos exóticos, e serem tachados de metidos. Coitados, eles sabem onde mora o perigo. Conheço um que, aocaptar o que a noiva a sua frente pretendia, mandou ela ir procurar outro. Alta, mais de 40, a moça queria uma cascata de cachos, para combinar com o vestido romântico. Ele indicou algo mais sóbrio. Direito dela querer casar de cachos. Direito dele se recusar a fazer algo que considera inadequado. Quando as duas partes, profissional e paciente (oôps, cliente) chegam a um acordo, é hora de desligar o celular. Primeiro, para que o cabeleireiro não seja obrigado a ouvir conversa particular, o que é quase beleza pura Saia-justa no salão sempre chato. Segundo, porque, se o tema for interessante, ele pode se distrair e fazer de você a última moicana, em vez de tirar “só dois dedinhos”.

Bolsa e revista sempre à mão

Na hora de ir ao lavatório, você fica constrangida de arrastar a bolsa com você? Relaxe: ou isso, ou mantenha seu tesouro ao alcance dos olhos. Você tem o direito de se sentir tranqüila, não importa a quantidade de “armários” que o salão tenha na equipe de segurança. Ainda no lavatório: chique é o profissional que pergunta a você sobre a temperatura da água; chique é o tipo que não esfrega a toalha no seu couro cabeludo como se estivesse apagando um incêndio.

Mas nem sempre a cliente tem razão. Uma situação saia-justa é quando o profissional se sente trocado, sem explicação. Você some e reaparece quando quer, na cara de pau, com outra cor, outro corte? A alma sensível que tanto cuidou das suas madeixas magoa, fica pior que marido traído. Tudo bem dar uma “fugida” do cabeleireiro preferido e fazer manutenção num outro mais barato. Mas evite entregar a cabeça aqui e acolá: tesoura e tinta é como beijar na boca, exige intimidade, não se faz com qualquer um.

Quer sossego? Fina, sinalize para a manicure que você não está a fim de conversa. As meninas conhecem o código: se você pede revista, é porque não quer papo, e essa vontade é respeitada.

Algumas freqüentadoras fazem do salão a extensão de casa. Nos “de bairro”, como se diz, esse é um espaço de convívio social, um clube de comadres, e isso também precisa ser respeitado. Minorias silenciosas e incomodadas que se retirem. “Tem cliente que passa aqui todo dia, toma um café, se atualiza e atualiza a gente, sabe? Vem contar e quer saber: meu filho passou no vestibular, o cachorro teve de ser sacrificado, seu sogro melhorou?…”, diz Renata Adão, dona de um salão em Pinheiros, bairro paulistano.

Língua presa

Nas aulas de Relações Interpessoais do curso do Senac, os futuros cabeleireiros aprendem a controlar a vontade de dar palpite na vida alheia. “Essa é uma relação íntima, porque há toque. O profissional mexe na cabeça da pessoa, e isso a deixa mais solta para falar”, acredita o coordenador, Helio Sassaki. “Ensinamos o aluno a ouvir e a nunca interferir.”

Quem trabalha em grandes salões tem certeza de que esses são lugares impróprios para abrir o coração (ou soltar a língua). Do outro lado do espelho pode estar a amiga do seu desafeto, ou o desafeto em si. Não é só em salão de bairro que se mistura o público e o privado. Algumas “madames” são tão folgadas que tratam qualquer lugar como se fosse sua casa. Então por que elas não levariam seus lulus ao cabeleireiro? A entrada de animais quase nunca é proibida, mas, por favor! Há que ter ternura sem perder o senso de ridículo jamais.

Uma vez, num salão dos Jardins, bairro supostamente chique de São Paulo, a socialite entrou com dois cães a tiracolo. O macho percebeu que estava em minoria e ficou quieto, ao lado da dona. Já a fêmea se sentiu à vontade a ponto de implicar com uma senhora que lia ao secador. Depois de muita provocação, latido e rosnado, até a sossegada dona do bicho achou que era hora de tomar uma atitude. Levantou, foi até a cadelinha e disse: “Filha, fique quieta, cachorro que late alto é cachorro grosseiro”. O pior é que a bronca funcionou.

Por falar em grosseria, não me pergunte de quanto é a gorjeta. Embora seja uma cultura instituída nas grandes capitais, a caixinha não é obrigatória. Se você der, não der, der muito ou pouco, der sempre ou só de vez em quando, tanto faz. Gorjeta é só uma outra forma de a cliente dizer que gostou do serviço. Os profissionais afirmam que é impossível estipular um valor, já que é um mimo. E se é mimo, pode ser simbólico: um chocolate, uma flor, um abraço.

Quer ser elegante de verdade e evitar clima? Basta usar três palavras. “Por favor” e “obrigada” você pode distribuir a todo mundo, generosa e sinceramente. Mais sinceramente ainda, na hora certa, use a terceira palavra mágica, a única capaz de evitar arrependimento e estouro no cheque especial. “Que tal variar essa cor?” Não. “Hoje não quer fazer pé?” Não, obrigada.

Como sair do enrosco

A alguns dias de festejar 18 anos, a garota M.A., de São Paulo, foi hidratar seus longos fios cacheados. Sentiu algo errado quando a moça que lavava sua cabeça disse, surpresa: “Nossa, seu cabelo embaraça fácil, não é?”. Não, não era, e o estrago estava feito. Um terço do cabelo formou um nó, com o manuseio e o uso de produtos inadequados.

Uma junta de profissionais foi chamada para desfazer o enrosco. Sete horas mais tarde, exaustos e frustrados, profissionais e cliente se renderam à tesoura. “O nó era do tamanho de uma bola de tênis”, conta a vítima, que durante um tempo guardou a “lembrança” do episódio, pensando em processar o salão. “No fim, fizemos um acordo”, diz ela.

Ainda que situações como a vivida por M.A. sejam raras, sempre é bom saber que, caso um serviço mal executado cause prejuízos à pessoa, é direito dela ser indenizada por danos morais e materiais.

Segundo Maíra Feltrin, advogada do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), é importante documentar os fatos. Ela sugere escrever uma carta para o fornecedor com o relato do acontecido, as exigências do cliente e um prazo para a resposta. A mensagem deve ser enviada com protocolo, ou pelo correio com aviso de recebimento. Se não houver resposta no prazo definido ou se a resposta não for satisfatória, com esse documento é possível procurar o Procon. Entretanto, reclamações envolvendo cabeleireiros são raríssimas no Idec, diz Maíra. “As coisas se acertam no salão mesmo, de forma amigável”, diz.

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